Justiça e Repressão
Há uns anos, os portugueses adoravam as televisões que emitiam programas erótico-pornográficos; hoje apoiam um governo que quer regular a violência nas televisões - e, presumimos, metê-las na ordem. Os portugueses mudaram.
A mudança não começou ontem. O inquérito de 1999 sobre os valores europeus, em cuja direcção Manuel Villaverde Cabral teve papel de destaque, já referia que o número dos desconfiados em Portugal tinha aumentado em dez pontos percentuais, desde 1990. São muitos os campos de mudança das atitudes lusas. Pensemos no ensino. Até há pouco, a opinião achava desejável o laxismo escolar. Pais e mães aplaudiam os professores que progrediam na carreira, pelo simples decurso do tempo, mesmo se faltassem às aulas dos filhos, pois eram esses mesmos professores que davam aos pimpolhos notas soberbas. Hoje, os pais-contribuintes, do mesmo passo, começam a apoiar uma carreira docente que premeie o mérito dos bons professores. Até há pouco, a televisão - a amorosa companheira com quem os homens portugueses passam mais tempo do que com as mulheres ou os filhos - era intangível. Agora, há um governo que pensa ganhar apoios, morigerando-a. Ganhará? Lembremo-nos que, numa sondagem da Universidade Católica, de 7 de Julho de 2001, mais de metade dos 1123 inquiridos julgava que «nos crimes muito falados» os suspeitos são mais beneficiados - o que também atingia a televisão que era certamente o meio de comunicação social no qual os inquiridos pensariam a propósito desse falatório. E, claro, a prisão preventiva de Carlos Cruz é a derrota da televisão e do «jet set» audiovisual. Podemos discernir aquela mudança de atitudes em campos tão variados como o combate à corrupção, a luta contra a pedofilia, a guerra à evasão fiscal, a melhoria do ensino: mais exigência, mais rigor, mais justiça. Sem essa mudança, não teria havido demissões na GNR, nem combate ao crime de colarinho branco, nem coragem de modificar o regime laboral dos médicos ou dos professores. As percepções globais da vida em sociedade estão a mudar. Porquê? Arrisquemos umas hipóteses. Há influência internacional: em França, o relatório de Blandine Kriegel também recomenda a limitação da violência na televisão. Há o ar do tempo: o 11 de Setembro relembrou a omnipresença do perigo. Há causas internas: a democracia está a ensinar os portugueses a serem duros. O que não admira: a democracia leva-lhes em impostos cerca de metade do que eles ganham. Mais rigor é mais repressão. Como ocorre nos países transpirenaicos onde - por exemplo - um atestado médico de favor dá cadeia. O perigo estará em passarmos do oito para o oitenta: do laxismo para o excesso securitário. Mas estamos longe disso. O mundo mudou. Os portugueses mudaram. Melhor: estão a mudar. Camões talvez acrescentasse: «e não se muda já como soía».
A mudança não começou ontem. O inquérito de 1999 sobre os valores europeus, em cuja direcção Manuel Villaverde Cabral teve papel de destaque, já referia que o número dos desconfiados em Portugal tinha aumentado em dez pontos percentuais, desde 1990. São muitos os campos de mudança das atitudes lusas. Pensemos no ensino. Até há pouco, a opinião achava desejável o laxismo escolar. Pais e mães aplaudiam os professores que progrediam na carreira, pelo simples decurso do tempo, mesmo se faltassem às aulas dos filhos, pois eram esses mesmos professores que davam aos pimpolhos notas soberbas. Hoje, os pais-contribuintes, do mesmo passo, começam a apoiar uma carreira docente que premeie o mérito dos bons professores. Até há pouco, a televisão - a amorosa companheira com quem os homens portugueses passam mais tempo do que com as mulheres ou os filhos - era intangível. Agora, há um governo que pensa ganhar apoios, morigerando-a. Ganhará? Lembremo-nos que, numa sondagem da Universidade Católica, de 7 de Julho de 2001, mais de metade dos 1123 inquiridos julgava que «nos crimes muito falados» os suspeitos são mais beneficiados - o que também atingia a televisão que era certamente o meio de comunicação social no qual os inquiridos pensariam a propósito desse falatório. E, claro, a prisão preventiva de Carlos Cruz é a derrota da televisão e do «jet set» audiovisual. Podemos discernir aquela mudança de atitudes em campos tão variados como o combate à corrupção, a luta contra a pedofilia, a guerra à evasão fiscal, a melhoria do ensino: mais exigência, mais rigor, mais justiça. Sem essa mudança, não teria havido demissões na GNR, nem combate ao crime de colarinho branco, nem coragem de modificar o regime laboral dos médicos ou dos professores. As percepções globais da vida em sociedade estão a mudar. Porquê? Arrisquemos umas hipóteses. Há influência internacional: em França, o relatório de Blandine Kriegel também recomenda a limitação da violência na televisão. Há o ar do tempo: o 11 de Setembro relembrou a omnipresença do perigo. Há causas internas: a democracia está a ensinar os portugueses a serem duros. O que não admira: a democracia leva-lhes em impostos cerca de metade do que eles ganham. Mais rigor é mais repressão. Como ocorre nos países transpirenaicos onde - por exemplo - um atestado médico de favor dá cadeia. O perigo estará em passarmos do oito para o oitenta: do laxismo para o excesso securitário. Mas estamos longe disso. O mundo mudou. Os portugueses mudaram. Melhor: estão a mudar. Camões talvez acrescentasse: «e não se muda já como soía».
Luís Salgado de Matos


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