quarta-feira, abril 20, 2005

Intolerância sobre o Laxismo

Para evitar más interpretações, é de salientar que num ambiente de grande exigência profissional as estruturas dirigentes das empresas não necessitam de recorrer a qualquer tipo de autoritarismo, pois os mais relaxados no local de emprego são socialmente mal visto e tendem a ser marginalizados pelos próprios colegas de trabalho. Há uma certa intolerância da sociedade perante o laxismo, a lassidão, a irresponsabilidade e a negligência, não sendo necessário ao patronato tomar posições de força para garantir níveis de produtividade elevados.
Sendo a democracia portuguesa relativamente jovem, é possível que a nossa baixa produtividade radique sobretudo num défice de civismo e cidadania. As pessoas ainda não encaram o trabalho como uma responsabilidade social, como um serviço que estão a prestar à comunidade. Não há ainda a ideia de que o padeiro precisa do médico na mesma medida em que o médico precisa do padeiro, pelo que todos - sublinho todos - devem fazer um esforço para cumprirem as suas obrigações profissionais da forma mais competente e produtiva possível. Trata-se de uma espécie de contrato social, no qual todos os cidadãos participam com direitos e deveres iguais.
Neste sentido, não se pense que para elevar os mínimos profissionais da população activa portuguesa bastaria uma intervenção apenas ao nível do tecido económico. Não! A intervenção tem de ser, necessariamente, mais profunda. Embora o empresário possa na sua empresa tomar medidas tendentes à elevação dos mínimos profissionais - através, por exemplo, de uma estratégia onde uma maior exigência laboral seja compensada com factores de motivação acrescidos (melhor remuneração, prémios de mérito, reforço da auto-estima do trabalhador, maior espírito de equipa, valorização individual...) -, a formação de uma cultura de exigência e responsabilidade é uma tarefa de toda a sociedade.
Uma cultura de exigência deve começar a formar-se nas escolas, como é natural e óbvio, mas terá de perpassar outras células importantes da nossa sociedade - como a família, a Administração Pública, o Governo, as empresas, as colectividades, entre outras - e lograr atingir uma esfera mais ínfima: o indivíduo. Cada um de nós tem, pois, de se deixar imbuir por essa cultura de exigência, de tal forma que sinta no quotidiano uma necessidade permanente de elevar os mínimos profissionais ou outros. Partindo desta premissa, concluímos que para elevar os níveis de produtividade em Portugal o próximo Governo terá de elaborar uma estratégia global. Isto é, uma estratégia capaz de promover uma cultura de exigência e responsabilidade nos mais variados vectores da sociedade - e não apenas nas empresas e na Administração Pública, onde a falta de eficácia laboral é mais aguda. Terá de ser realizado, então, um profundo trabalho de base, que parta da educação e contagie todas as outras esferas da sociedade.
É óbvio que se trata de uma tarefa complexa e morosa, cujos resultados só serão visíveis, possivelmente, nas próximas gerações. Por isso, não há tempo a perder, Senhores Políticos!
Cartas de Navegação
por Miguel Monteiro(Contacto: 00.351.226075670)
13 - Por uma cultura de exigência
http://www.janelanaweb.com/digitais/monteiro13.html

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